sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Pensamentos existencialistas

Tenho para mim que nos deprimimos porque nao somos o que pensamos que deviamos ser aos olhos do outro. Porque nao nos encaixamos naquilo que, aparentemente, estava predeterminado socialmente para nos.
Viver a vida nao e nada facil quando se percebe que de alguma maneira nao nos encaixamos na forma e ainda assim passamos nossos dias tentando faze-lo. Porque nao vivemos a vida que queriamos e nem aquela que “querem” de nos, sim, porque se deixarmos querem tirar-nos o direito de vivermos a propria vida. E qual e mesmo a vida que queremos para nos? Estamos em conflito com o que esperam de nos e o que verdadeiramente somos. E so saberemos o que somos sabendo tambem o que nao somos. O que es entao tu?
Nos conflitos de minha alma silencio minhas vozes para calar minhas frases feitas e deixar a cabeca pensar de forma diferente, ou nao pensar, deixar o coracao falar e a cabeca correr atras dele tentando decifrar suas mensagens mais secretas. Sou eu pelos tempos, cabeca correndo atras de coracao, e o pega-pega da razao e da emocao. E olha que a razao cansa de correr atras, porque colocamos tantos obstaculos no caminho, que a razao desiste de alcancar o coracao e resolve explicar tudo do jeito dela, como se fosse possivel explicar a existencia sem o coracao e suas emocoes... E ainda bem que as temos, porque sao as diretrizes mais exatas de nossos caminhos. Sao as velas de nossos barcos, sao os ventos de nossos moinhos.
Sao mensagens que sempre estiveram ali, pois o coracao nasce com voce e nao ha como uma celula do corpo viver sem ser alimentado pelo principio da vida, ele pulsa para todo o sistema. A linguagem do coracao e simples, sempre foi e sempre sera, o coracao e nossa crianca interior, genuino, inocente, puro e cheio de amor, ele existe para pulsar a vida. Ele so existe para ser para o outro, nao existem coracoes sos, os coracoes sao apenas porque existem outros orgaos.
Dai, sigo viagem para dentro de um universo que deveria ser o primeiro a ser conhecido, o meu interior. O meu coracao que pulsa o amor como todos os coracoes o fazem ainda que suas cabecas nao escutem, nao vejam e nao traduzam.
Lembro-me de Osho: “Quanto mais profundo você vai para dentro da vida, mais entende a imortalidade dentro de você”. Sigo voando com um prazer sem pressa porque a vida sempre estara la, aqui, dentro. E ele ecoa de novo: “Na vida, desenvolver-se significa crescer profundamente para dentro de si mesmo - que é onde suas raízes estão”.
Raizes essas que nutrem-se dos nutrientes do chao, da terra, do alimento que e cada pedaco de pensamento, de atitude, de desejo. Nutrimos ate os galhos mais altos e as folhas mais isoladas. E teus frutos entao dirao o tipo de adubo que estas colocando em seu chao. E experimentaras do doce ou do amargo de teu proprio fruto porque os frutos maduros caem no solo e adubam o chao. Teu fruto sera teu alimento. E a qualidade do teu alimento determinara o crescer de tua arvore. E teu crescer determinara tua sombra.
E crescer e criar horizontes, buscar novas formas, voltar-se para a luz, cantar novos versos, ter muitos galhos, folhas, frutos e ainda passaros a cantar em teu redor. Canto tambem Milton Nascimento em buscar meu caminho e seguir meu destino, cacadora de mim, a descobrir tudo, buscar o amor e olhar para a luz, pois sem ela nao ha vida. A vida e seguir em peregrinação. Peregrinar no universo coletivo do ser.
Porque a vida e busca, nao desejo, pesquisa, não ambição. E quem procura encontra. E devemos encontrar sobretudo a nos mesmos, o encontro esta dentro do espelho. E veras, no reflexo do outro lado, que es quem es, e que nao ha ninguem no universo igual a tu, e que portanto, nao ha formas iguais. E que assim, nao deverias obrigar-te a encaixar em forma alguma senao a tua propria. Tu es o que es e isso e tudo.
Nao tenho vergonha das formas que nao ocupo, dos rotulos que nao carrego ou dos valores que nao compartilho. Nao posso ter vergonha de ser eu mesma se esse e o maior de todos os principios, apenas, ser. Ser o que meu coracao e porque e ele que determina o alimento de minhas celulas, que desenha os tracos e a profundidade de minhas raizes, o tamanho dos meus galhos e a grossura de meu tronco.
E do que me alimento?
E como a parabola do sabio e do discipulo, onde ao questionar sentimentos como raiva, inveja e odio escutas do sabio a parabola. Nela conta-se que havia dois caes, um bom e outro mau, e que juntos deveriam viver, e o mais forte dominaria o outro. Seria o mais forte o que mais alimentado fosse.
Alimente sua arvore com bondade, amor, compaixao e discernimento.
Acredito que somos, do principio ao fim, pedacos do mesmo universo e coracoes com um mesmo destino: amor. Todos nos voltaremos ao Pai.
Alimente-se de amor.
Porque choro ao ver minha filha feliz ou triste, arrepio de ler um texto lindo ou danco numa cancao que me leva embora. Amo por amar, amo por existir, amo por compartilhar. Entendo sem palavras que amar e existir, que sem a outra parte somos incompletos. E atento para a beleza dos dias e noites, da simplicidade de tudo que e vida e sensivel aos olhos da alma, e assim a vida cresce. Ou como disse Osho: “Ela não é um pequeno poço, ela se torna oceânica”.
E nesse oceano cabem muitas vidas e o existir nao e singular. So ha existencia no plural. E ainda, vai-se descobrindo que descobrir a si mesmo envolve o outro e que a busca da vida e puro amor.
Todos pertencemos ao todo, somos partes do todo, somos o pulsar da propria vida.
Somos a agua e o pao, somos o adubo no nosso proprio chao.
E que ainda, sempre sera, o mais importante, o amor, porque o amor cura, limpa, recomeca, conecta, faz-te entender que o maior universo esta dentro de voce e que compartilhado, tudo cresce mais rapido. A vida e maior.
Porque amar e viver no plural.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O que e a nostalgia, por Debora Couto e Silva

Por que será que, por mais que a gente tente, muitas vezes é incapaz de abandonar determinadas memórias afetivas: imagens que construímos de nós mesmos, velhos amores, antigos padrões de comportamento?

E parece que não adianta mesmo fugir – tais memórias são nossa bagagem, estarão sempre a nos acompanhar. Claro que tudo isso depende do uso que fazemos do nosso passado. Pois uma coisa é ter o tempo pretérito como referência – é por meio do exemplo de pessoas e ações que vieram antes de nós que procuramos não perpetuar os erros de outrora ou que nos espelhamos para construir um presente melhor.

Isso é essencial em todas as culturas, do velho pajé que conta antigas proezas da tribo aos mais jovens até os livros de história que nos ensinam sobre os capítulos sombrios da nossa civilização.

Outra coisa bem diferente (e daninha) é a fixação no passado, quando remoemos aquilo que já está longe no tempo e no espaço, ou idealizamos (alguém, uma situação, um estilo de vida) a ponto de não mais conseguirmos olhar para a frente e aproveitarmos o presente – nosso tempo – em todo seu potencial. Aí entra a danada da nostalgia. Sim, porque a nostalgia, essa palavra grega que significa algo como “saudade de um lar que não mais existe ou nunca existiu”, pode ser um obstáculo para o nosso crescimento. Repare em como num momento ou outro a gente pensa num tempo bom que não volta nunca mais, numa “era de ouro” (completamente idealizada, uma ficção que mistura memória e desejo) em que tudo tinha cores mais belas. Ah, antigamente...

Faz mal?

Em The Future of Nostalgia (“O futuro da nostalgia”, sem edição brasileira), Svetlana Boym, professora de literatura comparada na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, explica que o conceito de nostalgia, diferentemente do que muitos pensam, não vem da poesia ou da política, mas da medicina, e data do século 17.

Naquela época, alguém que padecesse de nostalgia podia apresentar sintomas tão variados e nefastos como náusea, perda de apetite, febre alta chegando até mesmo a complicações físicas extremas, como inflamações no cérebro e ataques cardíacos. Em suma: nostalgia, naquele tempo, fazia parte de um temível rol de doenças classificadas pela ciência médica do período.

“Nos velhos tempos, nostalgia era uma doença curável. Perigosa, mas não letal”, escreve Svetlana Boym. O tratamento mais difundido era feito com emulsões hipnóticas e ópio. No século 19, o escritor e médico brasileiro Joaquim Manuel de Macedo (que entraria para os compêndios como o popular autor do romance A Moreninha) arrolava em sua tese Considerações sobre a Nostalgia, apresentada à Faculdade de Medicina, complicações como disenteria e febres.

A doença nostalgia era constantemente atribuída aos soldados em guerra e aos imigrantes vindos do interior. A coisa parecia mesmo tão grave, num tempo que ainda não vira o aparecimento da moderna psicologia e de todo o aparato farmacêutico, a ponto de Joaquim Manuel de Macedo tratála como uma espécie de demência.

Hoje em dia, no entanto, não se toma a nostalgia como uma condição patológica como se supunha no passado. Ao ser comparada à depressão e à melancolia, por exemplo, a nostalgia pode ser considerada um estado de espírito, quando a depressão e a melancolia são doenças em si. “A nostalgia pode ser vista como algo que desperta para a ideia de que também no presente coisas boas serão possíveis. Somente quem viveu momentos belos e felizes é que é invadido pela nostalgia, diferentemente daquele que passou pela vida e não viveu. Por isso, nostálgicos voltam ao passado no qual amaram e foram amados. Na melancolia ou depressão: nunca foram amados ou amparados”, afi rma a psicanalista Maria Olympia França.

Faz sofrer

Você certamente conhece a figura: aquele eterno insatisfeito, o tipo de pessoa de quem mais se ouve que antigamente... – ah! antigamente, como as mulheres eram mais bonitas (a beleza natural), as ruas mais limpas e o ar mais puro. É bem possível mesmo que a vida fosse mais amena. O custo de vida era mais baixo e o trânsito, muito menos estressante. E, lógico, havia menos gente no mundo.

Acontece que esse “antigamente” idealizado nunca mais voltará. Fato é que fabricamos muitas das nossas memórias e não temos certeza do passado, por isso mesmo é que o tempo pretérito nos parece ter cores tão mais definidas e ostenta uma cenografia tão impecável. É como um quadro que pintamos em nosso cérebro. Para Maria Olympia, a nostalgia é uma espécie de reaproveitamento da tristeza. “Ainda que difusa, ela sinaliza algo que foi bom. Eu era feliz e não sabia”, afirma a psicanalista. Isso denota o estado fantasioso da nostalgia em relação ao presente.

Claro que é impossível voltar ao passado, mas trazer seus elementos agradáveis de volta ao presente é algo bastante concreto. Se você gostava, por exemplo, de tocar violão, mas não pratica há anos, que tal treinar de vez em quando? Se sente muita falta da casa da mãe, comer um arroz com feijão no fim de semana pode dar um gostinho do lar para sempre desaparecido. Não é que vá matar a saudade. Até porque nostalgia e saudade são coisas diversas. “A nostalgia é um estado mais amplo, mais difuso que um sentimento de saudades. Enquanto este diminui quando reencontramos o objeto faltante, a nostalgia pode permanecer mesmo quando reencontramos aquilo de cuja falta nos demos conta”, diz a psicanalista. Mas ajuda a acalmar o sofrimento.

Pois nostalgia e perda são sentimentos tão parecidos que muitas vezes podem se confundir. A dor imensa que representa a perda de um filho é um exemplo de situação-limite que instaura uma condição nostálgica – e que pode desencadear uma baita depressão, já que as lembranças do passado se convertem em um fardo insuportável. “Nesses casos, a tristeza levará à impotência, ao sentimento de fracasso e de culpa. Nada mais é recuperável”, diz a psicanalista. Aí o recomendável é que se trate a depressão advinda desse processo.

Quando a perda é coletiva, como no caso dos fluxos migratórios (os imigrantes europeus na virada do século 20 que desembarcaram no Brasil e em outras nações das Américas, os migrantes do Nordeste que vieram ajudar a construir a riqueza de São Paulo), há a criação daquilo que se chama uma “memória cultural”. No caso de imigrantes, segundo estudos, é notada a criação de nichos específicos e a apreciação de locais determinados, o que a gente pode facilmente reparar em nosso dia a dia.

Quem mora em São Paulo ou em outra grande metrópole, por exemplo, e não conhece uma “turma” muito unida que veio de outra cidade? Ou restaurantes típicos – cantinas italianas, churrascarias, casas de sushi – frequentados por grupos específicos? Isso é muito comum. O pessoal elege alguns lugares, como bares ou casas de amigos, para frequentar e manter o contato com as próprias raízes. Pois Svetlana Boym explica essa manutenção da memória cultural através de um “estranhamento e sentimento de solidariedade entre os membros do grupo estrangeiro, que geram afeto e reflexão”, além de uma “vulnerabilidade ao lugar”.

É universal

Falando assim, até parece que a nostalgia é um estado psicológico exclusivo de determinados casos: na verdade, a maioria das pessoas a vive sem sequer se dar conta dela, mesmo que seja de uma vida que não é a sua. Nostalgia do que não viveu parece complexo demais? Então basta observar o mercado de consumo. O design, a arquitetura, a moda, o cinema, as telenovelas, tudo está preparado para atender a demandas por artefatos vindos diretamente do passado. São festas “anos 80” com sucessos da Blitz e da Xuxa, remakes de filmes clássicos, o Fusca renascido no neorretrô New Beetle, a volta dos discos de vinil ao mercado. De onde vem esse desejo de eterno retorno? Das memórias afetivas, das contingências do mercado, é um traço geracional?

De tudo isso um pouco. Cíntia Teixeira, professora de filosofia e coordenadora do IPPEX (Instituto de Pós-Graduação, Pesquisa e Extensão da Faced), de Minas Gerais, afirma que a necessidade de trazer elementos de outras épocas para o presente é uma alternativa ao inevitável progresso do esquecimento. E além disso é um traço geracional, marca daqueles que estão entre os 20 e poucos e 30 anos.

“Em larga escala, a geração Y participa de grandes eventos culturais com o intuito de rememorar o passado, sem ter a clareza do que foi e qual a real importância daquela geração e de reviver essa situação”, diz. E tem mais: o passado trazido de volta tem um bocado de presente. “Os eventos do passado são manipulados e reconstituídos perante uma audiência do presente, estabelecendo-se dessa forma uma conexão dinâmica entre ambos os tempos”, afirma. “Essa onda de nostalgia do passado é muito mais vivida por pessoas que sequer existiam naquele tempo homenageado que pelas pessoas que de fato estavam lá.”

Svetlana Boym observa que nostálgicos são geralmente pessoas de sentidos mais apurados. Ora, são os sentidos (audição, olfato, paladar...) que nos arrastam com mais força para as memórias afetivas. Talvez estejam nos sentidos as memórias afetivas que movem tais vontades e sensibilidades. Já é folclórica a história do escritor francês Marcel Proust que, provando um biscoitinho chamado madeleine, foi acometido por um verdadeiro ataque de nostalgia – o que gerou um dos maiores monumentos da história da literatura, o romance Em Busca do Tempo Perdido.

Outro escritor, o jovem brasileiro Daniel Galera, autor dos romances Mãos de Cavalo e Cordilheira, entre outros, diz que, embora não considere a nostalgia característica predominante em seus personagens, assume vivê-la em seu personagem da vida real. “Eu tenho nostalgia de uma vida mais solitária, às vezes. Parece que em algum momento vivi no interior ou numa praia quando era criança, e que tenho saudade disso.

Mas sempre morei em cidades grandes e fui a lugares isolados apenas como visitante ocasional. Esse tipo de nostalgia quase sempre é uma armadilha, porque é mera construção mental. Você sente que já viveu aquilo e sente falta, mas não é verdade. É uma narrativa ilusória da memória”, diz Galera.

Criação e memória, eis os pilares da nostalgia. Julia Valle é estilista e costuma desenvolver, no mínimo, três coleções por ano. Para cada uma delas precisa buscar inspirações totalmente novas. Acontece que o totalmente novo demonstra sinais de esgotamento, dando lugar à repetição, por isso ocorre uma tendência de retorno a épocas anteriores: “Soa fresco de uma forma, mas ao mesmo tempo já tem aquela garantia de que foi amplamente aceito em algum momento da história”, diz a jovem estilista, que confessa que gostaria de ter vivido nos anos 1920.

É particular Márcia e Sílvio (os nomes foram trocados para manter a privacidade das fontes) se apaixonaram no trabalho: o processo de produção de um curta- metragem. Ele, o diretor, bem mais velho, tinha uma postura jovem para a idade. Ela, atriz na ocasião, se sentia compreendida em sua pretensa maturidade. Márcia lembra que a experiência do filme foi poderosa emocionalmente e a lua de mel durou cerca de um ano. “Foi quando algo se rompeu e começaram a se abrir feridas, traições descobertas e muita dor”, diz, afirmando que a partir daí o caso começou a ser tão intenso quanto avassalador.

“Perdi as contas de quantas vezes terminamos e voltamos. Já não sabia mais para o que queria voltar. Queria um resgate, não conseguia deixar as boas lembranças.” Márcia chegou a se mudar de cidade para abandonar a memória, em vão. Ela afirma que ainda acreditava ser mais feliz com Sílvio. “Retomamos inclusive a distância, o que quase me levou à depressão. Estava prestes a largar tudo diante da doença que nossa vida em casal se tornou”, admite. Márcia diz que hoje Sílvio a procura de tempos em tempos e ela tem de se esforçar para não fantasiar um passado que ficou enterrado. “Guardo nossas memórias com carinho, mas hoje sei que é impossível resgatá- las”, afirma.

Casos como o de Márcia são mais comuns do que pensamos e servem como lembrança (sem trocadilhos) de que é muito importante ter cuidado com as fantasias. Elas podem literalmente nos prender a uma realidade inexistente e impedir um desenvolvimento no presente, além de uma possibilidade de vislumbrar o futuro. Uma saudade dos velhos tempos ou uma fantasia sobre certo fato do qual você adoraria ter participado podem alimentá-lo, mas, quando essas sensações se tornam obsessivas, é melhor ficar atento: finque o pé no presente e bola pra frente.

Deborah Couto e Silva